A questão da sub-representação feminina na política não é recente. A introdução da cota de gênero em candidaturas ao Legislativo, na década de 1990, não conseguiu resolver o problema de forma efetiva. Apesar das mais de três décadas de legislação, o Brasil ocupa a 131ª posição no ranking mundial de representatividade feminina em cargos eletivos, elaborado pela Inter-Parliamentary Union.
O desafio começa antes mesmo das eleições. Dos 29 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 26 têm órgãos ativos no Ceará, seja diretórios estaduais ou comissões provisórias. Dessas organizações, apenas duas são presididas por mulheres. Nos 10, 15 e 20 maiores partidos cearenses em número de filiações, não há nenhuma mulher na presidência. Esse cenário se estende para todo o país, destacado pela coordenadora do Laboratório de Estudos em Política, Eleições e Mídia (Lepem/UFC), Monalisa Soares.
A socióloga e integrante do Lepem, Paula Vieira, questiona a escolha dos dirigentes partidários de acordo com o estatuto de cada agremiação. O processo de seleção é determinado por militantes ou lideranças das direções locais? Se a escolha é feita por um núcleo específico, as mulheres, muitas vezes, são excluídas por não ocuparem esses cargos internos de direção partidária.
Esse ciclo vicioso perpetua a desigualdade de gênero nas legendas partidárias, fundamentais para o sistema eleitoral brasileiro. As decisões sobre candidaturas e a distribuição de recursos são tomadas nesses espaços, impactando diretamente a participação feminina na política. A ausência de mulheres nas direções partidárias contribui para o desinteresse ou interesse reduzido em implementar ações afirmativas de gênero, como as cotas, conforme observado pela professora de Direito Eleitoral Raquel Machado Malenchini.
A média de ocupação de cargos nas direções partidárias por mulheres é de 35,8%, apesar de representarem 49% das filiações, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. Essa disparidade gera uma menor implementação de ações afirmativas, impactando a representatividade feminina. A discussão sobre a participação das mulheres na política avançou no debate público, mas os partidos precisam refletir essa mudança.
A falta de interesse político, a resistência à mudança e a disputa de poder são citadas como desafios a serem superados para garantir maior representatividade feminina nos partidos políticos. A autonomia dos partidos é reconhecida, mas a cobrança é considerada necessária, especialmente porque os recursos são públicos.
Fonte: Redação ANH/CE









