Epidemia da moto: sinistros explodem e colapsam o SUS; ‘genocídio’ do asfalto ocupa 70% dos leitos de trauma no Brasil
“Fraturei a perna esquerda, quebrei parte do maxilar e levei uma pancada na base do crânio, que me prejudicou bastante”, conta Abraão Távora – JAILTON JR./JC IMAGEM Clique aqui e escute a matéria Tempo de leitura: 17 minutos Nesta reportagem especial, com texto da jornalista especializada em saúde Cinthya Leite e fotos de Jailton Jr., convidamos você, leitor, a acompanhar uma investigação sobre a escalada dos sinistros de trânsito envolvendo motocicletas. É uma realidade que tem transformado os corredores e os leitos dos hospitais em verdadeiros retratos da urgência. Durante um processo intenso e criterioso de apuração, que durou 30 dias, analisamos dados de instituições médicas e órgãos públicos, conversamos com especialistas e conhecemos casos de pessoas que sofreram ferimentos graves, ficaram com sequelas e foram internadas para tratamento prolongado após os traumas sofridos. O resultado dessa apuração é um retrato duro de um País em movimento, mas ferido: uma crise que atravessa o asfalto e chega aos hospitais, ao cobrar um preço alto em vidas, recursos e tempo; e que exige respostas dos governantes à altura de sua gravidade. Colapso anunciado: sinistros de moto consomem leitos e recursos da Saúde Pública no Brasil Ao longo destes 10 meses de 2025, o Hospital da Restauração (HR), maior emergência pública do Norte e Nordeste que fica no Recife, já atendeu a marca de aproximadamente 3.000 vítimas de sinistros de trânsito que envolvem motocicletas. Já Hospital Miguel Arraes (HMA), referência em ortopedia e traumatologia, localizado em Paulista (município do Grande Recife), ofereceu assistência a 806 pessoas este ano, até setembro, pelo mesmo motivo. Esses são apenas dois cenários específicos, com dados que representam a dimensão de uma crise de saúde pública nacional que sobrecarrega o sistema hospitalar, especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS). Nos últimos 30 dias, a reportagem do Jornal do Commercio levantou e analisou dados dessa natureza, conversou com especialistas sobre a escalada de sinistros de trânsito com motocicletas e conheceu casos de pessoas que sofreram ferimentos graves, ficaram com sequelas e foram internadas para tratamento prolongado após os traumas sofridos. Ao darmos o zoom nas estatísticas de todo o Estado de Pernambuco em 2024, foram registradas 36.026 notificações de ocorrências que envolvem motocicletas nas 18 unidades sentinelas do Estado (serviços responsáveis por notificar compulsoriamente sinistros de trânsito). Entre as vítimas, 28.036 mil eram homens e 7.955 mulheres. O número de sinistros apresentou crescimento mês a mês, ao longo do ano de 2024, o que reforça a tendência de expansão de casos: em janeiro, foram 2.789 notificações; em dezembro, o número saltou para 3.512. Vamos conversar no ZAP?Receba notícias na palma da sua mão. Entre agora mesmo no nosso canal exclusivo do WhatsApp ENTRE NO CANAL DO WHATSAPP “Fraturei a perna esquerda, quebrei parte do maxilar e levei uma pancada na base do crânio, que me prejudicou bastante”, conta Abraão Távora – JAILTON JR./JC IMAGEM Diversos fatores contribuem para as ocorrências com moto. Entre as notificações no Estado, 34,8% envolviam condutores sem habilitação, 23,2% das vítimas não utilizavam capacete, 20,6% dos sinistros ocorreram devido ao excesso de velocidade e 12,2% envolveram consumo de álcool pelo condutor. Sobre a evolução dos pacientes, nas 72 horas seguintes ao sinistro, 22,2% permaneceram internados. Segundo médicos, esse período inicial registra apenas parte das complicações, que podem se manifestar posteriormente. Ou seja, o quadro tende a se tornar mais grave com o passar dos dias de internamento. Esses números estão no boletim Sistema de Informação sobre Acidentes de Transporte Terrestre (Sinatt), divulgado pela Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE). “Assistimos ao impacto das motocicletas sobre o sistema público de saúde, sobre os profissionais que tentam manter o atendimento e sobre as famílias que dependem dessas vidas interrompidas”, destaca o diretor do HR, Petrus de Andrade Lima – JAILTON JR./JC IMAGEM Os dados e relatos apontaram para uma realidade alarmante, e ninguém vivencia isso de forma tão intensa quanto os profissionais que lidam com o problema diariamente. No dia em que marcamos a entrevista sobre o tema no Hospital da Restauração, o diretor da unidade, o médico cirurgião de trauma Petrus de Andrade Lima, chegou atrasado. O motivo do engarrafamento que o prendeu no caminho era o mesmo tema da conversa que teríamos: um sinistro envolvendo motos, com vítimas em atendimento. Quando finalmente atravessou a porta da maior emergência pública do Norte e Nordeste para nos receber, o médico comentou sobre o episódio e já iniciou a fala. “O sistema está em evidente e precisamos chamar a atenção para esse problema. São sinistros que crescem de forma geométrica, exponencial.” A constatação não é retórica. No Hospital da Restauração, referência nacional em trauma, o volume de notificações aumenta em cerca de mil casos a cada ano. Para ele, o cenário resume um fenômeno que há muito extrapolou as estatísticas. “Assistimos ao impacto das motocicletas sobre o sistema público de saúde, sobre os profissionais que tentam manter o atendimento e sobre as famílias que dependem dessas vidas interrompidas”, destaca Petrus. O problema, reconhece o médico, tem múltiplas causas. O transporte público precário empurra a população para a moto, mais barata e ágil; as vias são inadequadas; e a fiscalização, insuficiente. A soma desses fatores tem produzido um crescimento que se tornou insustentável para o trânsito, para os hospitais e para o País. A dor pessoal e a luta pela sobrevivência Internado no Hospital da Restauração, Abraão Távora, 33 anos, trabalhava como repositor de mercadorias em loja. Ao ficar sem o emprego, ele resolveu trabalhar como mototaxista, pois já era condutor de motocicleta desde a adolescência. Mas, na segunda quinzena do mês de setembro, ele sofreu vários traumas após uma colisão no bairro Cidade Tabajara, em Olinda, município do Grande Recife. “Já piloto moto há muito tempo, e antes eu já tinha passado por uma ocorrência, mas estava na garupa, não era o condutor. Dessa última vez, tudo aconteceu enquanto eu pilotava. Minha moto bateu na placa de uma parada de ônibus. Parei, tentei ver o retorno na rodovia, mas escorreguei na pista. E depois disso, não me lembro de nada mais. Tenho certeza de que foi Deus quem me livrou”, relata Abraão. Ele recorda que só













